Crônica do Dia – O mantra – Por Whisner Fraga

Em Ituiutaba ouvi pela primeira vez a frase:

– Você sabe com quem está falando?

Whisner Fraga

Wihsner Fraga

Eu era um faz-tudo em uma videolocadora e, pelo tom em que as palavras foram proferidas, soube que dali não viria boa coisa. De fato, nos minutos seguintes em que esmiuçou laços sanguíneos e currículos imponentes, fez questão de deixar entremear, na expressão, inúmeras ameaças.

Eu estava certo e não estava certo ao mesmo tempo. A justiça está repleta de interpretações e concessões.

O sujeito havia alugado dez fitas ou mais e estava com elas há trinta dias. Não desejava pagar multa. Como soubesse estar diante de um adolescente, primeiro invocou um cargo qualquer no cartório. Talvez fosse advogado, não me recordo. Depois apelou para termos jurídicos que eu desconhecia. E finalmente queria recorrer à força.

Mas nunca fui de me curvar a títulos ou intimidações – já estava contaminado pela lógica. Ok, não precisava pagar todo o montante, mas algum dinheiro a mais seria justo deixar.

Como os doutos da lei não entendem de justiça e sim de versões de códigos, não chegamos a acordo.

– Você sabe com quem está falando?

Até hoje, ruim para memorizar nomes e pior ainda com sobrenomes, não sabia e ainda não sei. Mas era importante, devia ser. Era de família poderosa, devia ser.

Finquei o pé em meu raciocínio: as fitas eram muito procuradas, lançamentos. Se não conseguia assistir a todas em um tempo menor, que alugasse uma quantidade inferior. Defendia não o patrão, mas aquilo em que acreditava. E ele rosna, patina, escoiceia.

Ao longo dos anos seguintes ouvi centenas de vezes o você-sabe-com-quem-está-falando. É o mantra dos que não têm razão e querem vencer na carteirada.

Naquele dia não arredei o pé: teimei. Podia, no máximo, conceder um abatimento, um desconto na dívida. Ele não gostou, queria pagar apenas o valor simples dos aluguéis, de três dias. Saiu da sala agitado, bradando que me entregaria ao patrão, que exigiria minha demissão. O que ele nunca soube, por que não lhe interessava, é que para mim um emprego que me rendia meio salário mínimo ao mês não era algo tão valioso assim. Por outro lado, achar um funcionário ético, dedicado e honesto por aquele soldo seria algo relativamente complexo.

De maneira que tudo ficou por isso mesmo e eu e o advogado fomos perdoados e pudemos seguir nossas vidas, sem que nunca mais nos encontrássemos.

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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