Crônica do Dia – A noite – Por Whisner Fraga

“Agora a casa está quieta e isso nos deixa apreensivos.”

Whisner Fraga 

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Helena se achega. Sobe em meu colo (não precisa pedir licença pra isso) e tomba a cabeça sobre meu peito. Ainda não é tarde. Dez horas da noite, pouco menos, mas ela parece estar com sono. Então eu a chamo para os rituais: tudo começa com escovar os dentes. Ela, já almejando a independência, pede a escova e a pasta. Deixo que tente. Depois ela pede ajuda.

Voltamos para a sala, ela faz uma última tentativa de driblar o sono. Quer ver algum canal do youtube. Não, não é a hora. Ela resmunga e mais tarde entende. Peço que reze o Santo Anjo. Ana gosta que ela sempre faça essa oração antes de dormir. Algum remédio a tomar? Não, faz tempo que Helena não tem de ingerir nenhuma droga e isso é bom, nos tranquiliza.

Penso no surto de febre amarela em Minas Gerais e me recordo que estivemos lá no início do ano. Tenho vontade de me levantar para conferir o caderno de vacinação de Helena. Mas ela está em meu colo e eu sempre fui contra paranoias. De repente, a pergunta:

– Papai, é verdade que eu cresci um pouco? Ou você acha que encolhi e que sou menor do que quando eu tinha dois anos?

Às vezes, quando está assim, sonolenta, ela me vem com essas preocupações. Digo que ela cresceu muito e que não gosto disso, que gostaria que ela continuasse pequena para sempre. Helena se levanta, me olha torto e dispara:

– Já se esqueceu da regra? Quanto maior, mais carinhosa vou ficar?

Voltamos para a realidade e ela me diz que está com dificuldade para dormir. Me pede uma história:

– A do vovô chiclete.

Invento:

– Tudo começou com um homem que mascava um Trident na rua…

Ela presta atenção. Muita. Percebo que assim não vai funcionar, ela ficou mais ligada do que antes. Procuro um atalho para terminar logo a história. Ela chia. A trama ficou sem lógica. Ela fica mais curiosa. Perdeu de vez o sono e eu começo a me cansar. Pergunto se quer um chá. Quer. Já que ela ainda está em meu colo, peço a Ana para fazer.

A bebida chega e ela toma. Chamo-a para ir para a cama. Me deito com ela. Deitada, o quarto escuro, ela se entrega. Observo um pouco aquela placidez. Por enquanto nada a inquieta. Dali a pouco um pesadelo poderá se intrometer em sua calma e nem a nossa vigilância impedirá que isso ocorra.

Agora a casa está quieta e isso nos deixa apreensivos. Parece faltar algo. Escolho um livro na estante, demoro para me concentrar.

É sempre difícil nos readaptarmos ao silêncio. A partir de então, a noite nos pertence.

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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