Crônica do Dia – Sonhos – Por Whisner Fraga

“Parecia que estávamos no filme “A fantástica fábrica de chocolates”, embora eu mesmo não me lembre de haver um ascensor assim lá.”

Whisner Fraga 

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1. Perdíamos de 1 x 0 e a torcida, formada por quatro pessoas sentadas ao pé da quadra, em cadeiras antigas de madeira, era implacável conosco. Precisávamos virar o jogo, ganhar o título, pois se tratava da final do campeonato mundial de futebol de bexiga. Não estava fácil de controlar o balão, mas reagimos e em pouco tempo empatamos a partida. Dava para vencer. Então, numa jogada brilhante, meu colega de equipe segurou a adversária, que vinha com tudo para cima de mim, e eu consegui caminhar sozinho rumo ao próximo gol. Logo estávamos vencendo de 4 x 1. Uma outra jogadora oponente correu para a trave, tentando tirar de lá uma das bexigas, para que o placar diminuísse. Pulei na atleta, cerrando em torno dela os meus braços e as minhas pernas. De repente notei que estava abandonado, todos os companheiros de time haviam saído para um descanso e eu podia vê-los bebericando algo do lado de fora. Gritei por eles, eu precisava de ajuda, pois faltavam poucos minutos para o término do confronto e todos estavam cientes do que podia acontecer em poucos minutos em uma situação daquelas.

2. Eu havia tirado 2,8 na prova final e essa nota era insuficiente para ser aprovado. Discuti com o professor: as questões 2 e 4 estavam com o enunciado dúbio, de forma que minhas respostas poderiam ser aceitas como corretas, dentro do meu entendimento. O mestre não cedeu e manteve a média. Assim, eu devia repetir o semestre. Recorri ao conselho, expliquei meu ponto de vista, mas todos queriam sair em férias, não desejavam problemas. Os pacotes da CVC já quitados, as pousadas já reservadas, o planejamento não podia furar naquele momento. O presidente, meu pai, nada podia fazer, pois pareceria que era algum tipo de beneficiamento, embora farejasse uma evidente injustiça ali.

3. Chamamos o elevador, que chegou em seguida. Era panorâmico e bastante moderno, como podíamos ver. Nosso destino: o prédio vizinho. Era a única forma de chegarmos lá. Primeiro, subimos, depois, após alguns solavancos típicos da mudança repentina de rota, ele virou à esquerda, seguiu uns metros, dobrou à direita, seguiu alguns quilômetros, desceu, se inclinou, guinou à direita novamente e parecia que estávamos no filme “A fantástica fábrica de chocolates”, embora eu mesmo não me lembre de haver um ascensor assim lá. Mas eu me recordei dessa fita no sonho e estou descrevendo aqui exatamente como aconteceu durante a madrugada, enquanto dormia, sem florear muito. Então paramos, a porta se abriu e vasculhei o cenário: uma cascata gigantesca estava do nosso lado e, abaixo, um abismo sem fim. Olhei para os que me acompanharam durante a viagem, dei um tchau e depois pulei.

4. Estava escrevendo o início de uma crônica e rabisquei as primeiras palavras de uma frase, pois havia no trecho dois termos iguais e isso é inconcebível em um fragmento tão pequeno.

News -JC

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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