Crônica do Dia – Ecossistemas – Por Whisner Fraga.

“Começava a ser decretado o fim do pudor e do bom senso. Vieram à tona, então, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a homofobia e assim por diante.”

Whisner Fraga 

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Um corpo dançava logo à frente, em um dos quartos transformados em, sei lá, talvez um ambiente da festa? Também não era necessariamente uma festa. Não era uma boate. Era uma casa antiga transformada em um ponto de encontro de universitários. Uma voz cantava. Devia ser, digamos, duas ou três da madrugada e eu estava ali depois de um dia estafante no laboratório. Eu só queria beber cinco ou seis cervejas e assistir aos músicos se contorcerem no palco improvisado.

Havia muito espaço livre, de forma que era fácil chegar à cozinha, onde se vendiam as bebidas. De vez em quando alguém chegava, puxava assunto. Política, às vezes. Algum tema social, às vezes. Bobagens, às vezes. Nem tudo era azul, claro. A presença cada vez mais comum de um público outrora estranho às universidades públicas causava certo desconforto. Era comum ouvir cochichos quando um desses passava.

Existia machismo, feminismo, racismo. A meritocracia era uma certeza um tanto abalada pelas teorias marxistas, cada vez mais entranhadas nos ambientes acadêmicos. Eu mesmo tentava me concentrar em meu doutorado, apenas observando. Não queria participar de discussões que não levaria adiante. Não tinha muito tempo livre para me aprofundar em outros temas que não o da minha tese. Anotava, deixava para depois.

Não sou, portanto, saudosista. Cada tempo tem seus senões. Difícil, assim, comparar o final dos anos 1990 com os dias atuais. Naquela época, não existiam redes sociais e as pessoas ainda se comunicavam por e-mail. Os smarphones não tinham sido inventados e as ligações de telefones celulares eram muito caras. Assim, o contato era mais pessoal mesmo, as pessoas se falavam ao vivo. Talvez mais do que hoje, não estou certo. Acontece que esse tête-à-tête deixava as pessoas mais amistosas. Eram raros os entreveros mais sérios sobre qualquer assunto, inclusive futebol e religião.

Então vieram as redes sociais. O Orkut ainda era uma espécie de teste. Ninguém sabia ao certo o que fazer com ele. Tornou-se, então, um depósito de banners e outros clichês. Era um ecossistema de pegação, que ninguém levava muito a sério. O facebook veio mudar isso. Doutores Jekyll se transformavam o tempo todo em Messrs. Hyde. Começava a ser decretado o fim do pudor e do bom senso. Vieram à tona, então, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a homofobia e assim por diante. Provas cada vez mais constates do mito do brasileiro cordial eram exibidas sem dó. Emitir opinião sobre qualquer assunto se tornou muito fácil. Bastavam a leitura de uma manchete e a disposição em digitar um texto no smartphone.

Não acredito que o brasileiro tenha mudado tanto, se tornado, em poucos anos, violento e intolerante. Acho que ele sempre foi assim. A diferença é que agora ele pôde sair do armário ideológico e espalhar suas ideias nas redes sociais.

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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