Crônica do Dia – O mérito nos décimos – Por Whisner Fraga

“Só hoje fiquei sabendo desses rumores do mundo. Que até no samba houve vencedor por décimo. E perdedor por décimo.”

Whisner Fraga 

Whisner Fraga

Houve um carnaval. Todo ano há um carnaval, creio.

Dizem que o país só começa a andar depois do desfile das campeãs. Calúnia. O Brasil parou há muito mais tempo, brioso e apático e não se mexe nem quando tiram o pão e o circo de sua boca.

Eu não assisti ao cortejo das escolas em frente à televisão.

Eu não acompanhei as discussões sobre o caos político ou sobre os acidentes de carros alegóricos ou sobre os tapa-sexos ou sobre as mortes no trânsito.

Eu fui para o mato fotografar pássaros.

O anu branco à espreita, o canário-da-terra estirado, o quero-quero aninhado.

O mato tomado por outdoors e cervejas favoritas.

O mato circundado por canaviais pomposos e verdejantes.

O mato salpicado de lagos manufaturados com escavadeiras.

Eu não vi a comemoração da escola vencedora.

Carreguei meu leitor de ebook e, debaixo de uma árvore, tateei o deslumbramento. Um bem-te-vi pousou ali perto, esperando um naco de qualquer coisa que lhe apaziguasse a desnutrição.

Só hoje fiquei sabendo desses rumores do mundo.

Que até no samba houve vencedor por décimo. E perdedor por décimo.

Perguntei aos meus botões: o que é um décimo de uma abstração? Um décimo seria um tropeço do mestre-sala? Um escorregão da porta-bandeira? Um repique fora de hora que somente um jurado colheu na algazarra de sons? Um décimo seria uma birra que algum membro do júri tinha com uma das agremiações?

Um décimo nem é margem de erro.

Ainda assim alguém venceu por um décimo e alguém perdeu por um décimo. É um mundo de justos. Um planeta de precisões. Uma sociedade de méritos.

Penso no bosque, nas aves, nos bichos que não se melindram nem se digladiam por tão pouco.

O importante é que o carnaval acabou. Não sei bem por quê, mas é importante.

fan
botaocurtaface

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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