Crônica do Dia – As varias faces da vida – Por Adilson Cardoso

O pequeno comércio estava rigorosamente pintado sob os olhares da proprietária. Paredes multicores bem iluminadas e reproduções de artistas como: Basquiat, Andy Warhol, Kandinsky e Mondrian, intercalados em todos os cantos. Uma papelaria espremida com prateleiras esticadas num espaço alongado, reaproveitando o antigo corredor ao lado da casa.

Adilson Cardoso

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Flamboyant havia se livrado de um casamento tenebroso, onde era prisioneira psicológica de um marido possessivo, foram quase dez anos. Dois filhos maiores de idade morando em outra cidade. Agora ela irradiava vida, se dava o presente da liberdade no vigor dos seus trinta e cinco aniversários.

Flamboyant nasceu literalmente dentro de uma papelaria, a mãe era companheira inseparável do pai, trabalhando mais de doze horas por dia, vendendo, atendendo o caixa, organizando o material que chegava e planejando o que comprar.

Naquele dia o esposo notara que por algumas vezes ela colocava a mão sobre a barriga e parava brevemente como se esperasse ouvir alguma coisa, mas entre um caderno e uma caneta a preocupação esvaia.

Porém em certo momento, um grito inesperado ecoou por detrás de uma pilha de folhas, o vendedor recobrando a memória foi em socorro da mulher, quem estava comprando seguia junto em apoio. Naquela época não existia SAMU, o carro dos Bombeiros só atendia se a casa estivesse pegando fogo ou desabando.

O hospital mais próximo era no mínimo dez minutos da Papelaria, se o carro se comprometesse em correr e o pouco transito não resolvesse impedir o desenrolar da viagem. Mas o Fusca branco que o casal possuía precisava esquentar antes e andar alguns metros de ré para embalar, por essa faceta recebia a alcunha de “fusca bode”, mas ainda tinha outro problema, se houvesse um sinal vermelho logo nos primeiros picos de aceleração, o carro só rodava novamente se fosse empurrado.

Com tantos impedimentos o pai suava e coçava a cabeça olhando a esposa derramar aquele liquido por entre as pernas, mas viera à sorte lhes carimbar aquele natal, uma Obstetra que deixava o plantão ansiava comprar uma agenda, ao ver aquele alvoroço prontificou-se a ajudar. Dali a poucos minutos a linda garota com olhos de mel, pesando quatro quilos e duzentas gramas estava deitada sobre a mãe, sugando seu primeiro alimento do mundo exterior.

O pai boquiaberto adorava a pequena criatura, limpava os olhos que insistiam em derramar lágrimas, enquanto uma incontável sessão de palmas e assovios se ouvia dentro e fora da papelaria. A médica acompanhara a mãe agarrada a sua primeira filha, não desgrudava os olhos, tampouco diminuía a atenção de aferir os dados vitais.

A noite foi de alegria com muitos convidados na casa iluminada, a Obstetra era de honra, o quarto rosado com cortinas de rendas tinha cheiro de vida nova, no chão um carpete de pelúcia com borboletas em todas as cores e o nome de “Norma” homenagem que os pais faziam a atriz Norma Bengell.

As vinte e três horas a médica se despedia sob contestações dos donos da casa e parentes, admiradores da sua boa ação. Mas segundo ela havia outras pacientes pela manhã, novas parturientes que precisavam dar a luz, e, criaturas lindas como Norma aflitas para ver o mundo.

Na manhã seguinte o sol não quis sair, mesmo sendo verão, uma nuvem sorumbática de um cinza melancolia estacionara no céu. A criança mamava com pouco entusiasmo e chorava sem que a mãe soubesse onde doía, apalpava a testa, olhava a moleira, desembrulhava o umbigo e sentia o volume do abdômen, aparentemente anormal, nem febre acusara no termômetro.

Mas um insistente visitante apertava a campainha intercalando a fortes batidas na porta, o pai que declarara feriado para continuar as celebrações, recebera mumificado o jornal das mãos do vizinho.

“Noite Trágica, Obstetra morre em acidente de carro”

Por volta das 23 e 30 minutos da noite passada um Voyage com placas do Espírito Santo, dirigido pela Medica Obstetra Flamboyant Maria das Dores de 38 anos, colidiu-se violentamente contra as muretas de proteção do Córrego das Luzes, com a força do impacto o carro partiu-se ao meio sendo lançado para o fundo das águas. De acordo com a perícia apesar dos levantamentos ainda preliminares, pelo que indica os sinais da pista não se pode descartar um choque proposital, ou seja, a medica pode ter cometido suicídio.

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Sobre o Autor

Adilson Cardoso

Artista plástico e cronista de Montes Claros – MG escreve aos sábados com exclusividade para o Jornal de Caruaru. Contatos: adilson.airon@gmail.com

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