Crônica do Dia – Pescaria – Por Whisner Fraga

Helena se senta ao meu lado, abriga a pequena mão em minha perna e me pede para segurar o caniço. Entrego a vara a ela, que, depressa, gira o molinete e recolhe a linha.

Whisner Fraga

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– Por que você está fazendo isso?

– Senti uma fisgada.

Então Helena me pede para lançar novamente o anzol ao lago. Arremesso e devolvo a ela o equipamento. Mal a isca chega ao fundo e a menina traz toda a linha à terra.

– Pai, tá demorando pra pegar um peixe.

– Tem de ter paciência. Tem de deixar o anzol na água. Esperar.

– Por quê?

– Porque leva tempo mesmo. O peixe precisa encontrar a salsicha e depois precisa querer comer.

– Mas, pai, ele não vai sofrer quando for fisgado?

– Vai sim. Um pouco.

– Que dó, né?

– É sim.

O sol está abatido neste início de maio e os peixes foram para as entranhas das águas. Troco a chumbada por uma mais pesada.

Uma fisgada nos cala. Pego a vara e dou um tranco para trás. O bicho se debate na ponta. Solto a linha, deixo que corra.

E ele foge.

Helena me olha, contente, vitoriosa.

Nos ajeitamos no barranco.

– Pai, tá demorando para beliscar.

– Tem de ter paciência. O bom de pescar é o silêncio, é que ficamos pensando.

– Pensando em quê?

– Em tudo.

– Tudo o quê?

– O que quisermos.

– A escola, por exemplo?

– Por exemplo. Em tudo.

– O almoço?

– Também.

– A tarefa que tenho de fazer?

– Isso.

– O peixe que vamos pegar?

– É.

– Mas, pai, tá demorando para beliscar.

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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