Crônica do Dia – Sarau – Por Whisner Fraga

Abri o aplicativo, chamei um carro. Tenho vários desses programinhas para celular, pois não dá para confiar que acharemos um táxi na rua na hora que precisarmos.

Whisner Fraga 

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O motorista me encontraria ali em seis minutos. O tempo passou e o primeiro recálculo. Mais cinco minutos. Decoro a placa, o modelo, a cor do veículo, para não haver erro na hora de embarcar. De longe confiro as três letras e os quatro números: é ele. Faço sinal e me encaminho para a porta do passageiro, mas o Logan passa direto. Grito, gesticulo e nada. Ele vai embora e em pouco tempo o motorista cancela a viagem.

Tudo bem, o local é um pouco escuro, é compreensível. Tento novamente e recebo outro cancelamento. São vinte e cinco minutos de espera, quando escolho outro aplicativo. Isso acontece, essa aleatoriedade. Tudo dá certo desta vez e em pouco estamos seguindo para o Patuscada, onde ocorrerá um sarau em homenagem ao poeta Osvaldo Rodrigues.

Aproveito e saco um livro da bolsa, mas está escuro e nada feito. Pego o celular e abro o kindle. Não é o ideal, mas é melhor do que ficar sem ler. Alguns solavancos depois e chegamos. O bar ainda está vazio e Osvaldinho está fumando na calçada. Estava incomodado com meu atraso, mas percebo que em São Paulo é difícil que os eventos comecem na hora marcada.

Andamos pelo Patuscada, falo um oi para o Eduardo e em breve estou tomando uma cerveja, tentando me enturmar. A casa vai enchendo. Reviso a poesia que escolhi para ler: quarenta anos de labuta nos dão uma certa responsabilidade. Selecionei a “Confidencial 10: Medo eu os tenho”. Esses versos do Osvaldinho são dos mais poderosos que já conheci: “Eu tenho medo da arrogância do progresso/ seus tentáculos seculares de misericórdias” e por isso eu quis que todos ali presentes os ouvissem.

Foram umas dez leituras. Outro grande poeta também esteve lá: Álvaro Alves de Faria. Inconformado, polêmico, um gigante. Todos celebrando, todos reverenciando. Findo o sarau, corro para o fundo. Quero comprar uns livros. Ronaldo Cagiano, Márcia Barbieri, Greta Benitez, Micheliny Verunschk, Fabio Weintraub. Levo estes e ganho outros. Está na hora e vou para a rua. A noite está bem fria neste pré-inverno e eu espero, em frente ao cemitério, que o táxi chegue logo.

Penso naqueles que trabalham durante quarenta anos e que continuarão a trabalhar. Imagino os que produzem com qualidade por quarenta anos. Aí me lembro de algo que disse lá dentro e que pode ter sido mal interpretado. Falei que a escolha de “Confidencial 10” não se devia a questões de qualidade, mas de gosto. Isso porque, na minha opinião, tudo que Osvaldo escreveu é de qualidade. Logo, não poderia ter sido um critério de seleção.

Quarenta anos são um mundo.

 

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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