Crônica do Dia – Caipira, caipirinha, caipirão – Por Anésio Neto

A crônica que segue é de 8 de março de 2015. Algumas modificações foram feitas no sentido de buscar uma contextualização maior no que tange à problematização proposta. Há muito que refletir, ainda, acerca da cultura caipira e o que ela representa para nós, Brasileiros. O texto busca apontar questões que poderiam (e deveriam) ser estudadas de forma mais profunda, mas que no decorrer dos meus dias acabaram por ficar apenas ilustrativas. Espero que gostem!

 

Anésio Neto

Anésio Neto

“No dia 8 de março de 2015, a cantora e apresentadora Inezita Barroso faleceu devido a uma insuficiência respiratória aguda. Foi velada e sepultada em São Paulo. (…)”

Inezita Barroso morreu, e não houve comoção nacional.

Esse poderia ser mais um texto jornalístico, com finalidade de informar os leitores, mas não é. Na verdade, quero dividir com vocês, caros, uma ideia acerca da morte dessa defensora da cultura caipira, algo que talvez nos fuja por sermos demasiado “comuns” e não conseguirmos enxergar além do óbvio.

A ideia de comoção nacional, com a qual iniciei esse texto, parte de uma constatação: e se fosse Zeca Pagodinho? Anitta? Luciano Huck e/ou sua esposa? Ou algo pior: ‘Rei’ Roberto Carlos? Estaria decretada a fórmula para o desastre! A verdade é que, constato, baseado em algumas suposições históricas, que nós, brasileiros, filhos de Jecas, sobrinhos e netos do êxodo rural pós-década de 80, temos vergonha de nossas raízes sertanejas, caipiras e tropeiras. Desde a era Vargas (1930 – 1945), a propaganda governamental buscou um símbolo cultural nacional capaz de unir as diferenças entre os Estados, enterrar o que havia de “atrasado” (leia-se: caipira!) e propagar, no estrangeiro, a ideia de um país unificado. Nada melhor para isso do que o samba! Opa, mas ‘peraí’: não qualquer samba, mas o samba urbano, o samba-canção e outros sambas que embalam a felicidade, típica do brasileiro. Aqueles sambas que destoam disso, por favor, ficar de fora – junto à cultura caipira!

Um curioso fato é que, mesmo estando no meio do “Sertão da farinha podre” (nota do autor: o texto foi escrito tendo por base a microrregião do Triângulo Mineiro), tratamos o funk carioca com cumplicidade cultural – como bons culturalistas que somos! Nada melhor do que um termo pós-moderninho [cumplicidade cultural] para designar o abraço pecaminoso dado à ideia propagada pela “rainha” Regina Casé aos domingos: “funk, samba e pagode são legitimamente expressões culturais afro-brasileiras e, por isso, todo brasileiro deve se orgulhar!”. Orgulho nacional? Pra quê ou pra quem? É apreciável sermos orgulhosos quando um governo (governo Vargas adiante) tenta desvalidar a cultura de um pouco mais de dois terços da população brasileira?

– O mais engraçado é que, para ser aceita pela grande mídia, a cultura caipira teve que “se modernizar”. Ou melhor: se maquiar. Vemos o florescimento de duplas de “sertanejo romântico” que se utilizam de uma linguagem mista na composição de suas músicas (o que não é nenhum problema, desde que a finalidade seja a música em si e não apenas faturar mais grana! Algumas duplas acabam cometendo a atrocidade de misturar funk às suas composições) no intuito de agregar mais público (= $$$!). Só com Michel Teló, Luan Santana e Gustavo Lima (e você…) para a cultura caipira ficar, digamos, mais…“deglutível”.

Não que sejamos contrários ao funk e cia. Longe disso! Se lá nos morros cariocas a população se orgulha, de cá devíamos fazer o mesmo! Mas não é bem isso que ocorre: andamos conforme a tônica cultural permitida a nós pelos meios de comunicação de massa (jornal impresso, TV e rádio). Graças ao rádio, o Triângulo Mineiro foi edificado ouvindo os gritos e coros da torcida do Flamengo e sambando a alegria descontraída do mundo carioca. Olhamos muito para o mundo de lá e esquecemos de vez as músicas, festas e raízes de cá. Talvez até não tenhamos esquecido, mas é que não consideramos a cultura caipira com o mesmo orgulho que a galerinha do “Esquenta” o faz com o funk e cia.

Falar de regionalismo, hoje, no mundo cada vez mais globalizado, parece ser um tanto piegas, não é mesmo? Mas esse discurso não nos parece um tanto arrogante, se observarmos que a cultura caipira é mais uma a compor o mosaico? Talvez a abordagem do que entendemos pela cultura sertanejo/caipira deva ser diferente, afinal de contas vivemos um momento em que a espacialização é influenciada pelas novas tecnologias da informação e o território se fragmenta em pequenas unidades culturais. Só isso seria necessário para pensarmos de uma maneira nova o que significa ser caipira atualmente! Mas se a cultura é como a vida, e a vida se desdobra em mais vida e se adapta, então até mesmo a cultura caipira se modifica. Não é que deixa de existir, veja bem! Mas passa a existir de diversas outras formas: não de maneira única, essencialista – passa a ser múltipla, várias, e possível de ser identificada conforme aparece a si mesma. Inezita Barroso não só entendeu isso, mas buscou deixar evidente ao Brasil sua raiz Caipira. E com Orgulho! Passou 35 anos à frente do “Viola, minha Viola” e não parou no tempo. Compreendeu, melhor do que muitos intelectuais universitários de nosso tempo, o valor e o fardo de ser Caipira na sociedade brasileira contemporânea. A ela, bem como a José Rico, deveriam ser rendidas glórias, dignas de uma celebridade global. Ou melhor, de uma Imperatriz.

Sobre o Autor

Anésio Neto

É mineiro de Ituiutaba - MG, tem 29 anos e atua como professor de Filosofia no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus Votuporanga. Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Mestrado em Arte Contemporânea pela Universidade de Brasília (UnB) e atualmente cursa o Doutorado em Poéticas Contemporâneas pela UnB.

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