Crônica do Dia – O dia seguinte – Por Adilson Cardoso

“Um cacoete repentino tremera a pálpebra direita, as mãos suaram e a boca amargara. “

Adilson Cardoso

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Era como irmãos siameses, viviam grudados desfrutando da vida. Farras intermitentes eram um dos artigos inalienáveis do estatuto da esbornia, rezado por eles. Mario Farra, Branquelo, Tiriboy e Cascão. Cresceram juntos morando no mesmo lugar do bairro das Pedreiras, Mario era o galã, cabelos pretos e escorridos até a altura dos ombros, tinha a seu favor os olhos verdes e o porte físico de atleta, Branquelo desde pequeno fora aquela fusão de “gente com minhoca” dizia seu tio Daurinho, afogado quando pescava no Rio São Francisco. Tiriboy era um negrinho metido a lutador de capoeira, andava cheio de patuás no pescoço e pulseiras nos dois braços.

Cascão até os dezesseis anos tinha quase certeza de que seria Padre, mas ao conhecer Edite dez anos mais velha, oferecendo sexo todos os dias e um baseado para ficar doido, entrou na onda de paz e amor com o sonho de libertar o mundo da Guerra Nuclear. Mario Farra morava na Rua Santiago Piancenza, esquina com Rubelita, alguns chamavam de bairro Ypiranga, outros diziam que era Lourdes.

Por coincidência os quatro pais também partilhavam uma longa e saudável amizade, serviram o exercito juntos e se casaram em família, duas irmãs e duas primas. Voltemos aos rapazes. O bar da Tonha era a referência de diversão, cerveja gelada, tira-gostos variados, e um serviço de “tele-pó” com a permissão do corrupto soldado Maraca, musica ao vivo de quinta a domingo e as garçonetes Selminha e Estela brasa com suas bundas morenas e fartas aparecendo a cada mover das mini-saias.

Tonha já dissera que nunca fora a responsável pelas roupas miúdas e sensuais das funcionárias, mas naquela altura se mudasse perderia clientes que às vezes descia cerveja com a outra na metade, apenas para tê-las ao alcance libidinoso dos olhos. Quando as mulheres casadas começaram com os ciúmes, a proprietária fingindo não ser com ela, deixara que os casais se resolvessem sozinhos.

Mas a parte curiosa deste enredo começa quando Estela brasa se sente atraída por Mario Farra, que tinha fama de “pegador” e língua-solta, ou seja, adorava narrar suas intimidades aos amigos. Muitos desejavam Estela, enviavam-lhe bilhetes, deixava notas graúdas como gorjeta, mas seu coração estava cada vez mais desintegrado pelo Mario.

Ele tripudiava, deixava que os amigos se escondessem no quarto para vê-los em momentos de amor, expunha Estela, fazia vídeos com câmeras escondidas e mostrava a quem quisesse ver, a garçonete do bar da Tonha galgava tudo àquilo em prantos, no alto do seu vilipêndio pedia apenas para ser amada, Mario sorria, dizendo que era um pássaro livre de coração trancado.

Branquelo perdera as contas das vezes que masturbara olhando a moça, eram fotos em poses diversas, vídeos, centenas deles que o próprio Farra comercializava. Até que um dia ao entrarem virando um litro de Rum no interior do bar, notaram que Selminha tinha outra companheira ajudando a servir, tudo bem para Mario, não se importara com a ausência, estava seguro de que trazia Estela na coleira, ela deveria estar em descanso.

Mas o dia seguinte e nos outros também que se seguiam ela não aparecia, Mario se incomodara, mas fingia não preocupar-se. Até que perguntaram por ela, a resposta fora de que não estava mais morando na cidade, tinha ido embora para outro pais com um cliente que há muito se declarava apaixonado, sem aviso prévio o coração de Mario socou com jeito de quem perdeu o ultimo trem, um cacoete repentino tremera a pálpebra direita, as mãos suaram e a boca amargara.

Os olhos não conseguiram ver mais as luzes com seus fachos sorridentes, abatera uma sombra cruel sobre ele, os amigos ameaçaram zombar do seu machismo vencido, mas Mario estava realmente atacado pelas palavras da proprietária que ecoavam incessantemente.

— Ah Mario, me esqueci! Olhe aqui um bilhete que ela te deixou! – Falou Tonha retirando o papel de dentro do sutien.

Trêmulo e com lágrimas minando dos olhos, Farra abriu desajeitado aquela folha de caderno pequeno, escrita a caneta azul.

“Hoje acordei sem alma, vazia, amputada de caráter. Vi fotos minhas em poses que eu horrorizava quando algumas amigas me mostravam por brincadeiras, de mulheres em sites pornográficos. Tantos vídeos, que tenho certeza de que estou à frente de muitas putas que vagam pela internet. Agradeço-te por isso! Dói muito, mas quero desfazer deste rancor, pois o anjo que abriu suas asas para mim, merece amor, aquele que te dei, para merecer todo este desrespeito em troca.

Adeus.

Mario Farra deixou o bar apertando a cabeça com as duas mãos, fazia zig-zag no meio da rua, buzinas soavam e seus amigos corriam tentando lhe alcançar, o céu que a pouco perdia a luz das estrelas para uma tempestade repentina disparou um trovão balançando a amendoeira em frente aquela casa de portão azul. O vento chegou forte, soprando os papeis e plásticos que se misturavam no ar ao romper da tampa da lixeira.

Os raios escorregavam sobre as nuvens expondo seus fios tenebrosos, o rosto desesperado de Marra continuava preso as mãos que apertava forte, como se algo dali fosse soltar-se naquela enxurrada de sangue que seus olhos enxergavam.

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Sobre o Autor

Adilson Cardoso

Artista plástico e cronista de Montes Claros – MG escreve aos sábados com exclusividade para o Jornal de Caruaru. Contatos: adilson.airon@gmail.com

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