Crônica do Dia – Os amigos – Por Whisner Fraga

“Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso. E fui.”

 Clarice Lispector

 

Whisner Fraga 

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Eles são amigos.

Amizade nesses dias é algo indispensável. Verdade que se dizem amigos de todas as criaturas, até dos animais, até dos bois, acrescentam. Às vezes matam bois, mas é por um motivo justo: mitigar a fome.

Às vezes os amigos erram. Se erram com os outros, com desconhecidos, passam a mão na cabeça do amigo. Se erram entre si, amigo errando com amigo, apelam à Bíblia: olho por olho.

Às vezes os amigos não são muito amigos. São só conhecidos ou colegas. Mas é importante chamá-los de amigos, pois se sentirão mais importantes e o relacionamento é elevado a algo além do descaso, embora na verdade continue sendo isso mesmo: insignificância.

Às vezes relevam os equívocos em nome da amizade. Não é bom se desgastar com um amigo. Não faz bem ao coração nem aos negócios.

O problema surge quando dois amigos em comum se desentendem. Consideremos que um deles desacertou. De que lado ficará? Nestes casos convém o silêncio. Convém ficar quieto, uns dias sem sair de casa, sem atender o telefone, sem procurar os amigos.

Até os ânimos esfriarem, até chegarem a alguma conclusão. Até cumprirem o que professa a Bíblia: dente por dente. Até fazerem as pazes. Torce para que façam as pazes, pois isso não exigiria dele nada além de um bocejo e um graças a Deus.

Às vezes ele quer convencer o amigo que o pensamento dele não é bom, quer que o amigo seja como ele, que veja os fatos como ele, que interprete o mundo como ele. Isso pode ser perigoso. O escritor Amós Oz diz que é o primeiro passo para o extremismo.

É bom que cada um veja os acontecimentos de uma maneira. Dão a isso o nome de pluralidade e faz bem até aos amigos.

Ligamos para o amigo quando não estamos bem. Frequentemente não estamos bem. O amigo atende, imagina que o convidará para uma cerveja, mas a realidade não mente. É certo que às vezes o intima para uma saída, se as esposas não se incomodarem. Mas as esposas usualmente se inquietam e eles deixam para outra oportunidade.

Amizade nesses dias é algo inevitável, apesar dos deslizes.

O amigo é um ser-humano e isso pode ser bom.

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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