Crônica do Dia – Do outro lado do morro – Por Adilson Cardoso

À medida que o morro ia diminuindo o paredão ia aumentando.

Adilson Cardoso

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Para chegar-se até o outro lado do morro da Batata era preciso seguir toda aquela estrada. Quando o relógio marcou trinta minutos depois da ultima vez que olharam, uma placa de madeira com uma seta pintada de branco surgiu apontando para a esquerda, dois minutos depois descortinava magnífica visão, um plano aberto de perder o fôlego, parecia ilustração de conto de fada, arvores coloridas e enfileiradas em volta da grande muralha que cercava aquele incontável numero de casas,

à medida que o morro ia diminuindo o paredão ia aumentando, o ar estava puro na tarde de um sol que caminhava morno, para se deitar atrás das montanhas bem desenhadas ao fundo. Dentro do carro os três homens calados, cada um concentrado em seu papel, o motorista era careca e possuía um cacoete bizarro, de dez em dez segundos soltava a mão direita do volante e imitava o tropel de cavalo com os dedos no painel do carro.

Aquele que estava no banco do passageiro segurava um mapa, com um lápis vermelho fazia marcas nas extremidades. O que ocupava o banco de trás tinha um revolver nas mãos e certificava-se de que possuía munição. Assim que concluíram a descida do morro da Batata depararam com uma enorme placa “Bem vindos ao Condomínio Bela Vista”.

As muralhas eram assustadoramente maiores do que se via, câmeras apontando a todas as direções, luzes de alerta em dois pilares e um único portão gigantesco como os muros com uma espécie de “olho mágico” no meio. — Por favor, identifiquem-se! – Soou uma voz metalizada. — Correios! – Disse o motorista careca que voltava a mão direita ao painel do carro imitando o tropel de um cavalo. — O carro dos Correios é amarelo! Identifiquem-se por favor! – Bradou a voz metalizada. — Somos Correios sim, o carro amarelo está no conserto! – Falou novamente o careca antes de voltar a imitar um cavalo correndo. — Vocês são ladrões? – Interrogou a voz metalizada. — Exigimos respeito, andamos quase duas horas para entregar as suas correspondências! – Argumentou o careca olhando para o orifício de onde vinha a voz.

— Você tem dez segundos para irem embora daqui! Após a contagem regressiva, não terão mais chance de fugirem! – Concluiu a voz metalizada lentamente dizendo dez. As vozes do carro silenciaram, os três se olharam e o careca nervoso aumentava os episódios do cavalo em tropel. Aquele que segurava o mapa resolveu correr quando a contagem chegava a cinco, o que segurava o revolver não conseguiu sair.

O motorista estava enroscado no cinto de segurança, após a contagem regressiva saíram homens encapuzados vestidos de preto, traziam armas e paus em punhos, como já não tinham mais argumentos, os dois homens foram torturados e o próximo passo seria o fosso dos Jacarés como incitava a voz de robô. Mas aquele que havia escapado estava de volta com roupa amarela e a bolsa dos correios. — Pelo amor de Deus o que estão fazendo com meus colegas? Mostrando as cartas e documentos conseguiu libertar os outros que se uniram aos moradores numa festa de gala no espaço de celebrações, o Gerente do Condomínio pedia desculpas e fazia questão que eles aceitassem uma quantidade expressiva de dinheiro para não envolverem a policia.

Parecia que algo ilícito rondava aquele lugar. Aceitaram e por lá passaram a noite com conforto, mas ao chegar à madrugada os três foram direto ao cofre, roubaram um carro e digitaram a senha da voz metalizada. No outro dia o prejuízo era contabilizado com decepção, amarrado a um canto estava o carteiro real que fora dominado pelo bandido do revolver que lhe tomara a roupa e a sacola. Passava pelo segundo flagelo, já que lhe recai a culpa do crime.

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Sobre o Autor

Adilson Cardoso

Artista plástico e cronista de Montes Claros - MG escreve aos sábados com exclusividade para o Jornal de Caruaru. Contatos: adilson.airon@gmail.com

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