Crônica do Dia – Eu quero explicações – Por Whisner Fraga.

Que me desculpe o feminismo, muito necessário nos dias atuais, mas não vou comentar a nova música do Chico Buarque.

Whisner Fraga

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Nem vou escrever sobre o dia dos pais, que acontece neste exato momento em que digito esta crônica. Preferiria que hoje fosse o dia da família e talvez sobre isso eu gastasse uns verbos.

Estávamos caminhando e havia um morador de rua na calçada, se espreguiçando. À nossa frente uma senhora, certamente de bem. Uma senhora empunhando uma garrafa com água. Suponho que fosse água. Provavelmente se sentindo ultrajada, humilhada, provocada por haver um homem morando nas calçadas da vizinhança, decidiu agir. Puxou a botelha e jogou o conteúdo, ou parte dele, na cabeça do inquilino da rua.

Como explicar o ocorrido para minha filha de seis anos?

Paramos. Conferimos que pouco do líquido acertara o sujeito. Que bom. Oferecemos pouca ajuda. Ajudar nos dias de hoje pode ser perigoso. Principalmente em público.

A moda pegou. É um tipo forçado de higienização? Ou eles querem apenas incomodar e os incomodados que se retirem? Ou uma mistura dessas duas táticas?

Algumas pessoas de bem veem o mal em lugares estranhos, geralmente fora delas.

A moda pegou. Atiram água gelada em absoluto inverno. Atiram o frio nos moradores de rua. Sentem medo de quê? Sequestram colchões, blusas, lençóis, tudo usado até o último fiapo. Querem que saiam dali. Mas para onde vão? Quem lhes ajeitará uma residência?

Os homens de bem sabem que eles não têm para onde ir. E decidem, em nome da decência e da tradicional família e do capital, a saída mais barata. Afirmam que eles são preguiçosos e a sociedade acredita. Dizem que são perigosos e a sociedade acredita. Porque a sociedade não quer correr riscos. A sociedade quer varrer o risco para baixo do tapete.

Quer incendiar o risco.

Os moradores de rua caminham molhados pelas ruas do centro lindo. Eu sempre confundo essa palavra “lindo”, dos outdoors e cartazes, com “limpo”, desde que cheguei a São Paulo. Os moradores de rua vão procurar outras ruas onde morar. Eles têm medo, pois sabem que o fogo brota nos panos enegrecidos de poluição. Eles sabem que os tiros miram os que não têm direito de reclamar.

Como explicar tudo isso para uma criança de seis anos?

 

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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