Crônica do Dia – Os Três Macacos Sábios – Por Nena Medeiros

“Andy Warhol mil vezes na TV disse:
– “No gossips, Miss”
Darling, querida
Vê se te toca
Leva tua vida sem fuxico nem fofoca… “

(Caetano Veloso – Grafiti)

Na lojinha de bugigangas, deparei-me com a estatueta. Três macacos, sentados lado a lado, tampando com ambas as mãos, respectivamente, olhos, ouvidos e boca. Menina curiosa, fui assuntar.

Nena Medeiros

Nena Medeiros

Soube tratar-se de uma réplica em miniatura das figuras que ilustram o portal de um templo, na cidade de Nikko, no Japão. O que cobre os olhos chama-se mizaru, o que tampa os ouvidos é kikazaru e iwazaru é o que cala a boca. Zaru, que significa negação, tem o mesmo som de Saru, que significa macaco. Assim, as figuras representam um trocadilho que significa: não vejo, não ouço e não falo. Mais exatamente, do mal, no sentido de se evitar a maledicência.

A lição parece ter sido aprendida, mas como bons interesseiros que somos, a entendemos como ela nos aprouver. Que atire a primeira pedra quem nunca contou a outrem alguma situação constrangedora, comprometedora ou humilhante passada por alguém. Difícil mesmo resistir. Seja porque a história é engraçada, ou porque a pessoa em questão merece mesmo passar por tal embaraço ou, simplesmente, por não termos mais o que fazer. Às vezes não nos limitamos ao que vemos ou ouvimos, repassando a intriga ouvida de terceiros. E, quase sempre, para valorizar a cena, aumentamos um detalhezinho aqui, outro ali. E assim, mantemos olhos e ouvidos bem abertos e a língua venenosa irrequieta que nunca para dentro da boca.

Só calamos mesmo quando lidamos com os problemas do mundo. A empregada apanha do marido, há indigentes dormindo sob a marquise, molecotes impúberes cheiram cola na pracinha, doentes morrem nos corredores de hospitais sem atendimento, jovens são brutalmente assassinados na disputa pelo poder do morro… Nessas horas, damos de ombro, superiores: já pagamos nossos impostos, educamos nossos filhos, pagamos mais caro pela segurança de nosso patrimônio, somos educados e politicamente corretos, tratamos todo mundo com respeito e educação… Até votar, nós votamos de forma consciente.
Macacos sábios, tampamos olhos e ouvidos para não testemunhar essas iniqüidades.

E a boca se abre só para justificar:

– Eu?? Não tenho nada a ver com isso!!

Categorias: Nena Medeiros

Sobre o Autor

Nena Medeiros

Nena Medeiros, escritora carioca radicada no DF, é colunista do jornal Alô Brasília, jurada em concursos literários, imortal pela ALB/DF, tem mais de mil textos publicados (www.nenamedeiros.com), participação em diversas coletâneas e revistas e três livros impressos: Contos Crônicos, Contos Crônicos 2 e Ô, Coisa Boa!

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