Crônica do Dia – Entrevista (1) – Por Sergio Geia

A repórter (descolada, linda) – Por que ser escritor?

Sérgio Geia

Sérgio Geia

Eu (nervoso) – Por diversas razões. Na escola, eu fazia boas redações. Os professores me elogiavam; eu tinha, digamos, uma certa facilidade pra inventar histórias. Eu tenho esse registro. Me lembro que no vestibular eu saí com a sensação de ter arrebentado na prova de redação. E foi verdade. Então comecei a perceber que gostava daquilo, e que as pessoas também pareciam gostar. Teve também a descoberta dos livros e do prazer que proporcionava a leitura. Monteiro Lobato. Aqueles escritores mineiros, o Paulo Mendes Campos, o Carlos Drummond de Andrade, o Fernando Sabino, todos num livrinho chamado “Para Gostar de Ler”, em que estava também o Rubem Braga, o maior cronista. Eles me proporcionavam sensações fantásticas. Era muito bom estar ali, deitado na minha cama, sentindo o solzinho entrar pela janela, uma brisa leve, e eu viajando naquelas histórias. Acho que a pessoa que lê muito, principalmente literatura, e gosta de escrever, num dado momento descobre aquela vontade de produzir alguma coisa própria, os seus textos, as suas histórias. Misturando tudo isso, mais uma pitada de disciplina, você tem o escritor. Cristovam Teza diz que “fazer literatura é uma atividade existencial”. O Rodrigo Lacerda diz que precisa escrever para ter a sensação de que a vida valeu a pena. Não me sentiria pleno sem o exercício da escrita, sem o ato de escrever. Quando termino uma história, pode ser uma crônica ou um conto, tenho a sensação de que o dia valeu a pena.

A repórter (parecendo muito interessada no que digo) – Quais são as suas referências?

Eu (tentando demonstrar segurança, mas sentindo o coração acelerado) – Muitas, muitas. Difícil dizer todas. Bom, tentando, dentre os brasileiros eu diria Machado de Assis, Rubem Braga, Érico Veríssimo, Fernando Sabino, Caio Fernando Abreu, Antonio Prata, Mario Prata. Gosto dos estrangeiros Philip Roth e do J.M Coetzee. Meu livro de cabeceira, atualmente, é “Morangos Mofados”, do Caio.

A repórter (bem à vontade) – Como você vê e relação entre a internet e a literatura?

Eu (tentando ficar à vontade) – A internet, segundo minha concepção, foi uma revolução no âmbito do conhecimento humano. Ela democratizou o acesso ao conhecimento. Somente quem viveu numa época em que não havia a internet tem condições de dimensionar o nível de transformação e de reprodução do conhecimento que ela representou. Nós não tínhamos acesso. Eu me lembro que na faculdade (eu fiz Direito), se eu quisesse ver a jurisprudência dos tribunais, eu tinha que assinar, e recebia em casa os livros encadernados. A assinatura era bem cara. Hoje os sites dos tribunais disponibilizam todos os seus julgados de graça. Qualquer assunto, qualquer tema, qualquer dúvida, a internet está aí pra responder. Publicar um livro sempre foi uma tarefa muito difícil. As editoras recebem muitos originais e quase sempre os descartam. Se você tem uma indicação de peso, talvez a editora se interesse em conhecer o seu trabalho. Caso contrário, você é descartado. Hoje está mais fácil publicar, há editoras que fazem pequenas tiragens; publicar um livro, ainda que de forma independente, ficou mais barato. Mas você pode publicar por meio eletrônico, você pode criar um blog, administrá-lo como quiser, e pessoas que vivem lá no Canadá ou em Cartagena poderão ler os seus textos. Isso é maravilhoso!

A repórter (querendo aprofundar, como ela mesma diz) – E o brasileiro e a leitura?

Eu (tentando não entrar em pânico) – O brasileiro não tem o hábito de ler. E a cada nova pesquisa a gente percebe que vem lendo menos. No tempo livre, ele prefere assistir à TV, ouvir música, descansar, praticar esportes, sair com os amigos. Poucos são aqueles que têm o hábito de ir a uma livraria, folhear livros, sentar num café e ler alguns trechos. E como não faz isso, não ensina isso aos filhos. E nós temos gerações de não-leitores sendo formadas. Antigamente a gente comprava CD para ouvir nossos artistas preferidos. Todo mundo tinha um aparelho de som em casa e uma coleção de CDs. Eu pergunto: quem tinha livros em casa? Uma biblioteca ou uma pequena estante? Poucos. As pessoas têm o hábito de ouvir músicas, o que é maravilhoso, mas não têm o hábito de ler, o que é lamentável. É uma questão profunda de educação. A gente sempre escuta que antigamente a escola pública era boa. No meu tempo a escola municipal era excelente. Os políticos viraram as costas para a escola pública. Se não houver investimento, se não houver políticas públicas sérias que privilegiem a educação, se não houver ações políticas de verdade, é isso que nós vamos ter. Bibliotecas, por exemplo. Já está comprovado que a existência de uma biblioteca por si só influencia a formação de novos leitores. Em comunidades que possuem bibliotecas públicas o rendimento dos alunos é bem superior em relação àquelas que não possuem. Aumenta o índice de aprovação. Diminui o índice de abandono. E é tão difícil assim investir em bibliotecas? E o professor? Todo mundo acha que o professor ganha mal, que o investimento deve ser no professor, pagando bem, reciclando-o. Agora se ele faz greve por melhores condições de trabalho, de salário principalmente, todo mundo cai de pau, a sociedade organizada é refratária, a própria mídia é. Mas com político, infelizmente, só funciona assim. Você só consegue alguma coisa protestando, fazendo greves, indo aos meios de comunicação de massa. Sem pressão, ele não quer saber. Ele vira as costas. Diz que não tem dinheiro. A Marcia Tiburi diz que por trás disso tudo existe um certo “fascismo”, a vontade do sistema de deixar o outro ignorante, porque se ele for ignorante, melhor para a manutenção do governo do jeito que está. Gente esperta, culta, informada é insubmissa, inventa coisas, pode criar outros mundos possíveis, palavras dela.

P.S. A entrevista continua na próxima quinzena.

 

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Sobre o Autor

Sergio Geia

Sergio Adriano Gonçalves Geia é escritor, cronista e romancista de Taubaté; autor do romance “Confidências de um sacerdote” publicado pela Cabral Editora e Livraria Universitária.

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1 Comentário em "Crônica do Dia – Entrevista (1) – Por Sergio Geia"

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Adilson Cardoso
Visitante

Uma verdade socada no estômago.Os leitores estão ficando raros.Quem devia promover a educação para a leitura,banaliza a ignorância. Salve!

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