Crônica do Dia – O documentário – Por Whisner Fraga

“Ninguém precisa ser radical e abdicar de seus prazeres e vícios.”

Whisner Fraga 

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Eu me ajeitei no sofá, milagrosamente livre de brinquedos e de lápis de colorir. Sintonizo na NetFlix e aceito a sugestão que o serviço me oferece. Cowspiracy, o segredo da sustentabilidade. O tema me interessa.

A chamada apresenta um boi com os pelos penteados para o lado, uma caricatura de Trump. Os olhos tristes detrás de uma cerca de arame farpado alertam que o documentário não facilitará as coisas para ninguém.

O fio condutor da trama é simples: por que poucos ativistas se preocupam com os efeitos devastadores que o gado produz sobre a vida no planeta? Segundo o filme, essas pessoas estão mais focadas no combate à produção de gases oriundos de combustíveis fósseis, à pesca indiscriminada, ao desflorestamento e ao consumo de água por parte dos cidadãos comuns.

O problema é que o desmatamento, a produção de gases e o consumo de água têm como principal fator a criação de gado para abate e consumo humano. Hoje, bois consomem 3 vezes mais água e comem 17 vezes mais do que todos os homens da Terra. Equivaleria a dizer, simplesmente, que se o ser-humano comesse menos carne bovina, haveria alimento para todos.

Comentava isso com alguns colegas, após o almoço, mas sempre ressaltando que ninguém precisa ser radical e abdicar de seus prazeres e vícios. Argumentava que em vez de ingerir 350 gramas de carne por dia, as pessoas podiam comer 60 gramas, 30 gramas.

A ideia, evidentemente, foi rechaçada. O argumento principal era o de que ninguém ali estava em idade de mudar de hábitos, mas que todos tinham dó dos filhos e dos netos, do mundo que entregariam a eles.

Diante de uma premissa tão forte, tratei de mudar de assunto. Não queria ser o chato do dia. Um pouco pesaroso, quando o tema derivou para cervejas, tentei um último comentário:

– Do jeito que as coisas caminham, em breve não haverá mais água para a produção da bebida.
Todos se levantaram, deram algumas desculpas e seguiram suas vidas.

O interessante da natureza e do mundo é que eles sempre se ajeitam e se recuperam, se regeneram. Quando os dinossauros não conseguiam mais conviver em harmonia com o planeta, a lógica deu um jeito de exterminá-lo. Em breve será a vez dos homens.

 

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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