Crônica do Dia – Uma tarde – Por Whisner Fraga.

A mãe cochila no quarto.

Whisner Fraga 

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O pai já voltou para o trabalho de escriturário, no centro da cidade.

Não sei onde estão meus irmãos, sei que não estão em casa. Talvez uma tenha saído para a aula de violão, talvez outro para algum trabalho em grupo na biblioteca municipal. Outro ainda tenha dado um pulo até o amigo.

Estou na copa e a mesa é minha. Agora livre dos pratos, das tigelas, dos talheres, das panelas, dos copos, se torna meu local de estudos.

Um mosquito afia a cabeça com as patas.

A poeira sobrevoa uma crina de sol que rasga a cortina. Um cão uiva longe, espantando a tarde que se descuida do tempo.

A vida é longa nesse suspiro.

Bocejo.

Abro o livro de matemática em umas contas borradas de preguiça. Desisto. Tento o de literatura. Uma crônica antiga me lembra que o mundo continua parecido.

Um bem-te-vi declama a liberdade.

A tarefa para o lar assusta o menino que só quer se lembrar do recreio na escola. Tão cedo para tanta responsabilidade.

A porta da cozinha está aberta e deixa escapar um vulto de telha e umas folhas carunchosas de laranjeira no dia avermelhado.

Não sei se é segunda ou quarta. Sei que é outubro e nem a mãe nem o pai aceitam que tire menos de nove.

Não gosto de recapitular coisas já sabidas.

Outra mosca se achega. A torneira goteja na bacia de aço da pia: um, dois, três, quatro, cinco, tum, tum, tum, tum…

Queria bater à porta do quarto e pedir companhia, mas a mãe precisa descansar de nós.
Abro o caderno e começo a escrever.

Será que algum dia conseguirei escapar disso tudo?

 

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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