Crônica do Dia – Lupa na pequenez da cotidianidade – Por Sérgio Geia

“A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão”

Sérgio Geia

Sérgio Geia

Marcação em cada título. Ponto que significa, na sua mínima organização: lido. Umas recebem mais que ponto, algo como “linda”, “maravilhosa”, “soberba” ou “sobre a televisão”. Outras recebem vários pontos. De acordo com o prazer recolhido: “três”, deve ser algo do tipo “maravilhosa”; “dois”, pode ser “boa”; “um”, talvez “mais ou menos?”. Há um tal de “vp”, que, puxa da memória, reconhece como “vale a pena”. No começo funcionava bem um marca-texto. Mas a tinta acaba, e nem sempre tem em casa. Agora, mais moderno, introduz emojis; na verdade, carinhas sorridentes desenhadas à mão (ainda não usou uma carinha triste).

Se vai ao banheiro, tem um livro nas mãos. Sim, ele tem esse costume (você também?). Nesse caso, não faz a costumeira marcação, pois caneta não tem. Várias vezes se viu lendo coisas lidas, mas não se importa.

Adora acordar cedo, tomar banho, beber um copo de leite, depois pegar um livro. Normalmente crônicas, mas pode ser conto. Prefere crônicas, gênero para ser saboreado, degustado, como se degusta uma mousse de chocolate: fechando os olhos, tateando sabores, experimentando texturas, cremosidades.

Então, senta-se na varanda, acolhe a brisa, olha a rua, as pessoas andando, a Mantiqueira, escolhe alguma coisa, começa a ler. Dá pausas, sente o sabor, a textura, fecha os olhos, absorve imagens, reinicia, depois fecha os olhos de novo, viaja.

Quando é tocado por uma imagem, fica arrepiado. Às vezes chora, a emoção transborda. Sorri sozinho, bate palmas, como um doido. Encanta-se com cada frase, com o fluxo, emoção pura. Às vezes diz: “cara, você é um tremendo de um filho-da-puta!” Outras, agradece; reza até.

Gênero menor? Ora, de onde isso? Gênero maior. MAIOR. Lupa na pequenez da cotidianidade, único capaz de extrair artisticamente de um nada, de um buraco de banalidades, entregue à mais completa iniquidade, coisas tão preciosas e belas.

Lembra de “A última crônica”. Subliteratura? Lembra só não, quer rever. Num impulso, vai até a sala e pega o livro de capa vermelha — “As cem melhores crônicas brasileiras”. Lê: “A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade, estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um”.

Ele saboreia o início: “A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão”; gosta. Inícios assim já convidam o leitor para um passeio; convite irrecusável. E como estava inspirado esse Sabino. Ou não. Não estava, está escrito. Mas há a sensibilidade, ele consegue capturar o que interessa, e que vai coroar de êxito mais um ano de busca pelo pitoresco ou o irrisório do cotidiano: o aniversário simplório de uma criança pobre num botequim da Gávea. O título está destacado em laranja. Ao lado, ele anota: “beleza; beleza, beleza”, quase desenha, e volta o livro para a estante, sorrindo.

Apanha “Pequenas Epifanias”, do Caio F., e retorna para a varanda. Abre em “Quando setembro vier”, uma crônica que já leu e releu diversas vezes: “Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaleias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém-pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim”.

Respira fundo, depois fecha os olhos. Saboreia a ironia fina, o escárnio, a resposta do autor àqueles que andaram dizendo que ele estava amargo demais. Relembra, assim do nada, da sandália lilás que encontrou na calçada de manhã. Largada num canto, esquecida por alguém ou abandonada. Do nada, de novo, vem à mente o início do que pode ser um conto: “Como a bituca de cigarro, o galho da sibipiruna, a long neck , a caixinha do Big Mac…”.

Sem perder tempo, levanta-se, corre atrás de um papel, escreve as palavras sopradas pelo vento: “Como a bituca de cigarro…”

 

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Sobre o Autor

Sergio Geia

Sergio Adriano Gonçalves Geia é escritor, cronista e romancista de Taubaté; autor do romance “Confidências de um sacerdote” publicado pela Cabral Editora e Livraria Universitária.

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