Crônica do Dia – Quem fará a sua parte? – Por Whisner Fraga

Whisner Fraga é escritor, autor de “A verdade é apenas uma versão dos fatos”, Penalux, 2017.

Whisner Fraga 

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Ministrava uma palestra sobre minicontos, no Instituto Federal de São Paulo, câmpus Sertãozinho. Levara vários textos para ler, inclusive de autores brasileiros. Ou principalmente de escritores canarinhos, pois este era o foco da exposição. A certa altura trazia a ficção de Arthur Nestrovski, intitulada “Outra viagem”, presente na antologia “Os menores contos brasileiros do século”:

A mala é bem grande, mas não sei se cabem as pernas.

Como sempre faço, para não tornar a conversa enfadonha, abro para o debate. Alguém lá atrás pede o microfone e interpreta mais ou menos assim a história: alguém mata uma mulher e, ao tentar colocar o corpo na caixa, percebe que não vai caber.

Logo após essa análise, me vem a seguinte questão: qual parte do texto dá a entender que as pernas pertencem a uma mulher? Então pedi ao público que me explicasse. Uma professora que estava por lá comentou, como esperava: hoje, no Brasil, a grande vítima de violência, de todos os tipos, é a mulher. Assim, associamos essa morte a uma pessoa do sexo feminino.

Eu, que tinha várias versões para explicar a narrativa, não esperava essa. Embora essa discussão seja extremamente importante – e basta dar uma navegada pela Internet para perceber que os números atestam o que a professora apontou – não podia deixar o tópico ir muito adiante, sob pena de todos perdermos o eixo da conferência. Ainda assim deixei o assunto rolar mais um pouquinho.

Seguiu-se para a questão da mulher negra, ainda mais vulnerável. Goste ou não, é importante que a plateia se acostume a tais polêmicas, salutares, ainda mais se levarmos em conta o momento de retorno ao conservadorismo que o mundo experimenta. Um ou outro deixou o auditório, como era de se esperar: liberdade é isso.

Para reforçar essa internalização e consequente banalização de algo tão grave, apresentei outras perspectivas: essa outra viagem do título, poderia ser erótica. Um homem tentou se ajeitar em uma mala, para consumar um ato sexual, seja com outro homem, seja com uma mulher, seja com outras pessoas, mas percebeu que não seria algo muito confortável.

Outra explicação: alguém acostumado a conhecer o mundo sem pagar, usando, de alguma maneira, do artifício de transitar em um baú, resolve partir para outra viagem. Ao ser apresentado a uma arca na qual nunca havia entrado, imagina que não caberá lá dentro. Forçada, mas possível essa perspectiva.

Terminado o evento, fiquei com vontade de mudar a perspectiva de minhas falas: gostaria de usar a literatura como ponto de partida para a desconstrução de preconceitos. Não sei se levarei essa ideia adiante, não sei se me convidarão para dissertar sobre isso, não sei se sou a pessoa mais indicada para abordar o tema, mas sinto que tenho de fazer a minha parte.

 

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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