Coluna do Dia – Bogoncongó – Por Carlos Pinheiro

O final de ano caiu num domingo com feriado na segunda-feira, provocando êxodo na população de Caruaru às praias na quinta-feira.

Carlos Pinheiro

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No Terminal de Passageiros, pessoas se cotovelavam parecendo fugitivos de terremoto, mas, apenas, abandonavam a cidade deixando-a a solidão de poucos que não viajavam por impossibilidades variadas, como Tertulino de Góia, miserável aposentado que sobrevivia.

– Fico aqui, nada. – disse a si mesmo. Juntou numa sacola uma chinela, uma camisa nova que ganhara do irmão, toalha, sabonete, pasta, escova e perfume que ganhara dos filhos, e que já se mandaram à praia. Juntou moedas que amealhara no ano e rumou sem destino, decidido a pegar o primeiro transporte que fosse pra qualquer lugar.

– Uma passagem, por favor. – o homem do guichê o olhou com desconfiança: “O senhor tem certeza que quer ir a Bogoncongó”?

– Portão 16. – informou com ar de riso.

Tertulino estranhou não ter ninguém no portão 16. Entrou no ônibus parecendo caixa de sapatos. Mulher gorda de bunda volumosa ocupava duas cadeiras. “Essa mulher não tem ânus. Tem séculos” – pensou Tertulino. No colo, menina catarrenta e, no corredor, um porco com coleira, como se cachorro fosse.

Só despertou quando em estrada de terra. Finalmente chegaram, com a noite avançada. Esperou a menina descer tangendo o porco: “Vamos, Denguinho. Kusch, kusch, kusch”.

A cidade tinha duas ruas, uma praça e uma igreja de uma só torre. O cachorro, que não era porco, ao ver o visitante à porta da Pensão “Riso da Noite, Rua das Mágoas”, escondeu-se embaixo da petisqueira.

– Ô, de Casa! – repetiu Tertulino, até que apareceu uma velha surda.

– Por um dia custa 25, por dois dias custa 50 e por três dias custa 75 reais. Café, almoço e janta. Doce de mamão na petisqueira, mas não suje a tirrina. Banho uma vez por dia porque a água é pouca.

Tertulino foi à praça. As luzes se acenderam. Assustou-se ao ver ao seu lado uma jovem: “Bem me quer, malmequer”. – repetia.

– Porque você não se decide no bem-me-quer ou no malmequer? – perguntou.

– Se o senhor estar avexado deveria ter ficado no seu lugar, porque aqui não temos pressa. Vamos esperar romper o ano. – de longe só deram fé que o ano terminou porque Bogoncongó ficava num alto e podiam ver os fogos, em alguma cidade abandonada, mas não se ouvia o espocar. Aproveitou e beijou a moça e quando as tochinhas de luz acenderam ela tinha desaparecido, juntamente com o tempo e a saudade do tempo quando se apagavam as luzes da cidade ao romper do ano.

Vê se pode?

Sobre o Autor

Carlos Pinheiro

Jornalista caruaruense que escreve toda semana, no Jornal Vanguarda, uma "Coluninha indiscreta". Da qual extraímos este conto.

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