Crônica do Dia – Papai Noel – Por Jair Humberto Rosa

“Ficou esperando dar meia noite para poder rumar para sua casa vazia. Fazia tempo que nem tristeza sentia mais.”

Jair Humberto Rosa

Jair Humberto Rosa

Apesar de lhe faltar a característica protuberância abdominal, o homem acabou por conseguir um “bico” para representar o Papai Noel na loja de roupas e calçados instalada na rua principal da cidade, aproveitando a onda de apelo à imagem mítica do “bom velhinho”, que uma vez por ano movimenta o comércio. A rigor, ele não seria selecionado, pois além de não carregar consigo a tradicional barriga do personagem que encanta a criançada, não era detentor da peculiar risada, que costuma ser um atrativo para a clientela infantil. E atrás de uma criança encantada, tendo condições financeiras, vem um pai ou uma mãe com disposição para as compras. Os comerciantes sabem disso há séculos, e além de bem explorar esse fator agregador de bons negócios, foram criando, através de suas associações, outras datas comemorativas. A tal ponto que hoje existe até o “dia da sogra”. Sem contar, claro, os dias dedicados às pessoas queridas.

O homem ia exercendo sua atribuição da forma que conseguia, tentando agradar os meninos, conforme orientação do contratante, com o objetivo de alavancar os negócios, aproveitando a oportunidade dessa época natalina, com as pessoas mais sensíveis e sentindo-se motivadas (muitas se sentindo obrigadas) a dar presentes. É o momento de incrementar as vendas e recuperar os maus resultados provocados pela crise política e moral que assola o país, e termina por prejudicar o comércio.

Entretanto, o Papai Noel em exercício eventual do ofício de que aqui tratamos nada tem a ver com isso, quase nada sabe a respeito; apenas sofre suas consequências.

Aguentou firme, embora sentisse cansaço e dores nas pernas, a jornada para a qual fora contratado, devendo deixar o posto de trabalho às vinte e três horas. Recebeu a diária de cinquenta reais e rumou para o bairro em que morava. Por ser uma cidade pequena, embora distante do centro, até sua casa não era um percurso que não pudesse fazer a pé.

Iniciou a caminhada a passos rápidos, dentro de seu limite físico, quase inconscientemente, até que percebeu que não tinha nenhum motivo para se apressar: em casa ninguém o estava esperava, fazia tempo.

Logo que saiu da região central encontrou um boteco aberto, alguns poucos fregueses bebendo, uns em mesas na calçada e apenas dois junto ao balcão, sentados em tamboretes. Entrou e pediu uma cerveja. Tinha dinheiro para cerveja, não ia beber numa noite especial a mesma cachaça barata de todo dia.

Sentou-se numa mesinha do lado de fora, disposto a ficar esperando dar meia noite para poder rumar para sua casa vazia. Fazia tempo que nem tristeza sentia mais.

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Sobre o Autor

Jair Humberto Rosa

É membro da Academia de Letras do Brasil Central, foi o primeiro presidente da Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba – ALAMI. Foi presidente da Fundação Cultural e vice-presidente do Conselho Municipal de Educação de Ituiutaba. É mestre em Psicologia Educacional e em Psicopedagogia.

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