Crônica do Dia – Vick Vaporub – Afrodisíaco? – Por Nena Medeiros

“- Seu “darado”! “O’de” já se “biu”? Quer “be” “badar”??”

Nena Medeiros

Nena Medeiros

Depois de três dias viajando a serviço, Leandro chegou em casa cheio de saudades e desejo. Alice sorriu ao vê-lo, mas antes que ele pudesse abraçá-la e dar vazão aos seus instintos mais selvagens, sempre atiçados à presença dela, ela escorregou, ladina de suas mãos:

– “Dô” super “gribada”, “abor”! Não quero “de” “bassar” esse vírus…

Ele ainda tentou reagir, inventou que era vacinado, que tomava vitamina C todo dia, que caiu no caldeirão da poção mágica quando era bebê. Não houve jeito. Apesar da moleza típica da gripe, ela estava bastante firme na sua decisão. Vencido ele lhe preparou um chá e ela foi dormir. Sem ter o que fazer, Leandro sentou-se ao seu lado com um livro na mão, mas ainda muito excitado, não se animava a iniciar a leitura. Passou os olhos sobre a mesinha de cabeceira, cheia de remédios. Dentre eles, um potinho de Vick Vaporub. Lembrou-se de ter lido em algum lugar que a pomada, aplicada nas partes íntimas tinha um certo efeito catalisador dos prazeres do sexo, potencializando as sensações do orgasmo. Cheio de energia acumulada, resolveu experimentar. Abraçou-a por trás e, aproveitando a passividade dela, já meio grogue com a medicação, começou a provocá-la, até que, ao senti-la também excitada, passou um pouco da pomada nas mãos e delas para o dito cujo, prontinho pra luta. Quando a ardência começou, achou que, dentro dela ao invés do enorme desconforto que já se iniciava, sentiria o tão esperado êxtase e sem dar-lhe chance de defesa, mergulhou-o Alice a dentro. Ledo engano. Não só a ardência não melhorou como foi agravada pela fricção e Alice acordou de sua letargia enfurecida, jogando-o pra fora da cama aos berros de fanha:

– Seu “darado”! “O’de” já se “biu”? Quer “be” “badar”??

Correram os dois para o chuveiro e lavaram-se até o mal-estar passar, numa operação que agravou o estado de saúde dela, fazendo-a espirrar e tossir. Se ela não estivesse tão prostrada, ia mesmo dar um sopapo nele.

Depois de muitos pedidos de desculpa, ela acabou achando graça. Ficou curiosa com a história do efeito da pomada e resolveu pesquisar melhor. Achou lá na internet: um pouquinho – pou-qui-nho!!! – da pomada aplicado na virilha – vi-ri-lha!!! – aumenta o prazer sexual.

Uma advertência, ao final da página, dizia para evitar – e-vi-tar!!! – o contato da pomada com as mucosas.

– Você sabe o que são mucosas??? – perguntou ela, com ironia.

Ele, envergonhado, nem admitiu que até sabia, mas que, pensando com a mucosa de baixo, não teve idéia de pesquisar melhor o assunto.

Para desespero dele, Alice, escrachada como ela só, nos contou essa história numa mesa de boteco.

Ele se mostrou tão ressabiado, que não tive coragem de perguntar se eles, depois, experimentaram da maneira correta, para saber se dava certo.

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Sobre o Autor

Nena Medeiros

Nena Medeiros, escritora carioca radicada no DF, é colunista do jornal Alô Brasília, jurada em concursos literários, imortal pela ALB/DF, tem mais de mil textos publicados (www.nenamedeiros.com), participação em diversas coletâneas e revistas e três livros impressos: Contos Crônicos, Contos Crônicos 2 e Ô, Coisa Boa!

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