Crônica do Dia – Beto saiu para ir ao cinema – Por Jair Humberto Rosa

Beto saiu para ir ao cinema assistir “A Noite do Espantalho”. Ele não ia sozinho, antes ia buscar a sua namorada no seu fusquinha branco, ano setenta. Mas a sua namorada não foi ao cinema naquele dia e diz que ele não passou na sua casa. Beto não gostava de ir ao cinema sozinho, porque dormia. E o filme não podia ser perdido assim, dormindo no cinema. Mas não é só por isso que ele ia levar sua namorada; ele gostava muito de estar junto dela.

Jair Humberto Rosa

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Se Beto foi ao cinema ninguém sabe, mas do cinema todo mundo sabe que ele não voltou.

Três dias depois que ele saiu, a mãe de Beto recebeu quatro visitas de uma vez. Quatro senhores muito bem educados e gentis que, para não incomodar, nem bateram na porta, derrubaram-na a pontapés.
A mãe de Beto ficou apavorada porque não tinha costume com aquilo, mas os visitantes gentilmente a consolaram, dando-lhe tapas e empurrões.

Os quatros gentis visitantes vasculharam a casa, derrubaram cadeiras, mesas, armários e camas, quebrando muita coisa, pedindo educadamente licença à mulher apavorada, apontando-lhe os seus revólveres.

Não disseram o que queriam, porém a mulher percebeu que queriam livros, jornais e discos. Deviam ser intelectuais.

Iam botando tudo num saco, menos os discos, que iam quebrando; mas não coube tudo, buscaram mais dois sacos. Beto tinha muitos livros.

Até o inocente Isaías Caminha foi ensacado. A mãe de Beto chorou ainda mais quando pegaram o Isaías Caminha e o botaram no saco, porque, embora não soubesse ler, sabia que o livro era muito bom, porque senão Beto não gostaria tanto dele, a ponto de tê-lo lido quatro vezes e ainda viver folheando-o sempre que ficava com aquele seu jeito caladão, cheio de tristeza nos olhos. Ele até falou um dia:

– Mamãe, eu nunca vou passar de um Isaías Caminha.

Por isso a mãe de Beto chorou mais. Estavam levando o futuro de seu filho.

Quando a casa estava toda bagunçada e todos os livros e jornais ensacados e os discos quebrados, os quatro gentis visitantes foram-se embora. A mãe ficou chorando e esperando Beto, mas ele não voltou.

Beto gostava, muito de ler e ouvir música e quase não conversava. A mãe gostava de ficar sentada na sala, olhando para o filho que estava lendo e ouvindo música ao mesmo tempo. Ela não sabia como era que ele conseguia ler e ouvir música ao mesmo tempo.

Beto, de dia, trabalhava no banco, e de noite estudava Sociologia na Faculdade. Toda sexta-feira ele chegava à casa de madrugada e dizia para a mãe que estava numa conferência para tratar do futuro do País. A mãe ficava orgulhosa de saber que seu filho era tão importante que até participava de conferências para tratar do futuro da nossa Nação.

Ele falava sempre que existe uma minoria que se farta, graças ao suor de uma maioria que passa fome. A mãe nunca tinha pensando nisso, mas achava que o filho tinha razão.

Quando fez um ano que Beto saiu para ir ao cinema assistir “A Noite do Espantalho” e não voltou, sua mãe foi a uma livraria e comprou um “Recordações do escrivão Isaías Caminha” e pediu para a namorada do filho ler para ela. Não entendeu nada, mas achou que o filho tinha razão.

Esperando Beto, a mãe fica à janela, emagrecendo dia-a-dia, feito espantalho. Mas Beto, que saiu para ir ao cinema, nunca mais voltou.

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Sobre o Autor

Jair Humberto Rosa

É membro da Academia de Letras do Brasil Central, foi o primeiro presidente da Academia de Letras, Artes e Música de Ituiutaba – ALAMI. Foi presidente da Fundação Cultural e vice-presidente do Conselho Municipal de Educação de Ituiutaba. É mestre em Psicologia Educacional e em Psicopedagogia.

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