Crônica do Dia – Histórias de Acampamento – Por Nena Medeiros

“A melhor história de acampamento que eu conheço me rendeu dois sobrinhos”

Nena Medeiros

Nena Medeiros

Empolguei-me. Meus dois últimos textos falavam de meus acampamentos, e nenhum contava as histórias de acampamento. Então, aí vão elas…

Imagine a cena: Eduardinho dormindo ao lado do que restou da fogueira, sob o sol já-ficando-forte da manhã. A turma já toda acordada e se agitando para o café da manhã e ele lá, parecendo uma minhoca em seu saco de dormir todo chamuscado. Tem sempre um espírito de porco nesta hora para sugerir:

– Vamos jogar esse dorminhoco no rio!

E tem sempre uma vara de espíritos de porco prontos a aceitar a idiotice. Pois foi a primeira vez que vimos uma minhoca com braços, que lançou à frente e agarrou-se fortemente a uma pedra. Os suínos de plantão viraram hienas, caíram na gargalhada e deixaram a minhoca dorminhoca em paz.

Na época, meu irmão e os amigos haviam desenvolvido o hábito feio de encerrar todas as palavras longas com “tua bunda”. Coisa de menino:

– Fez o relá-“tua bunda” de química? É pra hoje…

– Não… Passei a noite às voltas com o questioná-“tua bunda” de sociô-“tua bunda”…
Estávamos organizando o acampamento e meu irmão foi buscar lenha. Não deu dez minutos e vem ele, correndo, sob ataque dos ferrões dos bichos furiosos, gritando:

– Mari-tua bunda! Mari-tua bunda!

Havia um amigo, o Paulão, que era fã dos Aqualoucos, fazia um truque que merece reporte: pulando de pé da pedra do Primeiro Salto, com dois metros de altura, ele batia na água com os braços abertos, as mãos espalmadas para baixo e conseguia não afundar a cabeça. Por conta disso, era obrigado a repetir o salto uma centena de vezes, todo mundo queria ver e tentar imitar. Ao final do dia, estava com os braços vermelhos e doloridos.

Uma vez, levei os colegas do trabalho a Topázio. Ge, um deles, metido a conquistador, chegou na beirada do Segundo Salto, seis metros de altura, todo pavoneado, peito estufado, desfilando para as moças de um outro grupo que encontramos por lá. Ao olhar para o rio passando lá embaixo, estreito e escuro, amarelou:

– Brrrrrr! Tá frio!

Encolheu-se e foi procurar um lugar ao sol, para se esquentar, seguro e bem longe da beirada.

No Araguaia, à noite, descia com a lanterna, meu pijaminha, sabonete, toalha e distribuía tudo sobre uma cadeira velha que ficava à beira da água. Acampamos em um braço do rio, num trecho meio represado, com uma monstruosa superpopulação de piranhas. Qualquer coisa lançada à água provocava ebulição de dentes famintos, por isso, o mergulho era inviável. Tirava a roupa e equilibrava-me sobre a tábua imitação de cais, para o banho de cacimba. Uma vez, estava já meio ensaboada quando ouvi um barulho no mato próximo. Pensei que era brincadeira de algum dos amigos, e peguei a lanterna, apontando-a na direção do ruído. Dois grandes olhos injetados refletiram a luz amarelada. Era um enorme jacaré e estava a não mais do que seis metros de mim. Agarrei as roupas, derrubei o sabonete para as piranhas e saí correndo em direção às barracas, enrolando-me na toalha pelo caminho.

No dia seguinte, soube pelos zeladores do parque que o réptil vouyer era velho e desdentado e que eles o alimentavam com restos de comida.

– Como vocês sabiam que era ele? – perguntei, esperando alguma resposta bem incisiva de que só ele ficava naquela área, nenhum outro conseguia atravessar o mar de piranhas para chegar ali e tal. Afinal, ainda precisaria tomar mais uns dois banhos antes do fim da estadia. A resposta não me animou:

– Ah! Devia ser. Os outros só aparecem de vez em quando.

Banho, a partir dali, só perto do acampamento, com água carregada em baldes.

Mas a melhor história de acampamento que eu conheço me rendeu dois sobrinhos, um deles, meu afilhado lindão. Lina, minha cunhada, não sabia nadar. A prainha onde acampávamos dava para uma grande piscina natural, rasinha e ela entrou, caminhando. Quando estava com água na altura do peito, porém, ela perdeu o fundo e apavorou-se, começando a debater-se. Meu irmão mais velho veio ao seu socorro e a tirou do rio. O resto da história vocês imaginam. Nós nunca encontramos este “buraco” onde ela diz ter “perdido o pé”. Até hoje brincamos com ela, dizendo que ela já estava de olho no meu irmão e fingiu o afogamento. Ela não desmente nem confirma, mas os dois trocam olhares cúmplices. A gente deixa quieto. Isso lá é segredo deles. Há vinte e dois anos.

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Sobre o Autor

Nena Medeiros

Nena Medeiros, escritora carioca radicada no DF, é colunista do jornal Alô Brasília, jurada em concursos literários, imortal pela ALB/DF, tem mais de mil textos publicados (www.nenamedeiros.com), participação em diversas coletâneas e revistas e três livros impressos: Contos Crônicos, Contos Crônicos 2 e Ô, Coisa Boa!

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