Crônica do Dia – O vírus e a desconfiança – Por Whisner Fraga.

“Esperemos que o mosquito não se infiltre nos blocos. O circo não pode parar.”

Whisner Fraga

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Um áudio de uma mulher preocupada com a doença contamina os grupos de WhatsApp. Pode ser mais uma pegadinha – se for, é bem-feita. Se não, é preocupante a falta de informação. Ela fala de um tal macaco amarelo que transmite uma febre. Tem receio da gripe que esse primata transmite e alerta que deviam vacinar era o bicho e não o homem.

O conhecimento está a um clique e ainda vivemos a era da ignorância. Passo em frente a um posto de saúde e as filas são mastodônticas. O pânico faz com que o homem acorde às duas da manhã para se alinhar a outros homens que têm medo do que desconhecem. A imprensa planta manchetes ambíguas que serão lidas por trabalhadores nos murais das bancas.

Mesmo fracionada, a vacina não é para todos. Mas todos precisam? Fui imunizado há dez anos – tenho de tomar nova dose? A criança foi vacinada aos nove meses – e agora, que está com oito anos? Na dúvida, vamos ao postinho e lá eles decidem. Mas lá eles não resolvem, pois as ampolas são contadas e só dão para duzentas pessoas por dia.

E os maiores de sessenta, o que devem fazer? Uns médicos afirmam que é perigoso vacinar, outros prescrevem a proteção. Aí, na volta para casa, a incerteza. Uma pesquisa no site do Ministério da Saúde e pode encontrar uma orientação. Outra fuçada na página da secretaria de saúde e uma indicação diferente. Teme os efeitos colaterais, as reações, a morte. Morre com a vacina ou com a picada? Mais uma confusão.

Mesmo vacinado, há chance de ser contaminado pela febre amarela? Parece que sim, já que não há nada que garanta uma defesa cem por cento efetiva. Também há casos de pessoas que não aderiram ao tal reforço e foram contagiadas. Ora, então aquele bebê vacinado somente aos nove meses precisa do complemento aos oito anos? Alguns previnem que sim, outros que não. Na dúvida não viaje. Para lugar nenhum. Mas e se o mosquito se infiltrar na cidade?

A insegurança cria essas filas. E deveria haver vacina para todos, mas não há. Então fracionam – um quinto para cada cidadão. E mesmo assim não é suficiente. Por quê? É tudo tão caro assim que o Estado não pode comprar? A televisão se esquece um pouco da política e o carnaval está próximo e esperemos que o mosquito não se infiltre nos blocos. O circo não pode parar.

Passado o medo da febre amarela, aqueles que se salvaram começarão a corrida pela vacina da gripe H1N1. Já estarão experientes em acordar às duas da manhã para encarar novas filas descomunais. Novamente não haverá vacina para todos.

E a dengue, onde está? Ninguém mais fala dela.

 

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Sobre o Autor

Whisner Fraga

É escritor. Autor de oito livros, dentre eles: “Lúcifer e outros subprodutos do medo”, Editora Penalux, 2016. Teve texto traduzido para o alemão, por ocasião da Feira de Frankfurt, em 2013.

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